Viaje até ao ano de 1835 no menor museu-casinha de Groningen

Das pedras do mosteiro a uma casinha para os pobres

Na pequena aldeia de Rottum, em Groningen, existe uma casinha tão discreta que é fácil passar por ela sem dar por ela — até perceber a história extraordinária que guarda entre as suas paredes. ‘t Hoeske van Thais Joaptje é a prova viva de que, mesmo com o mínimo, era possível criar um lar cheio de calor humano.

Muito antes de esta casinha existir, Rottum foi palco de um poderoso centro religioso. No século XIII, ergueram-se sobre a colina os imponentes edifícios do Mosteiro de Juliana. Este enorme complexo albergava centenas de monges e freiras, e as suas terras estendiam-se até à ilha de Rottumeroog. Porém, a guerra, a pobreza extrema e o declínio do poder da Igreja ditaram a destruição quase total do mosteiro no final do século XVI.

As resistentes pedras de tijolo do mosteiro sobreviveram, e foi precisamente com elas que se ergueu, mais tarde, algo completamente diferente: uma modesta habitação diaconal no canto do adro da igreja, que viria a ser conhecida para sempre como ‘t Hoeske van Thais Joaptje.

Um abrigo para quem não tinha para onde ir

Tudo indica que a casinha foi construída nos séculos XVII ou XVIII, por ordem da diaconia — o organismo que geria a assistência social da Igreja na época. Quem ficasse sem teto sem ter culpa disso recebia aqui um refúgio temporário. Neste espaço de apenas um compartimento, sucederam-se jovens casais, viúvas sozinhas e famílias mergulhadas na mais profunda miséria.

Uma das moradoras mais marcantes foi Jacobje Dijkhuis, que viveu aqui entre 1926 e 1944 com a sua filha Jacoba. Como era viúva de Ties (Thais) Knol, os vizinhos chamavam-lhe carinhosamente Thais Joaptje. A sua vida simples e profundamente piedosa impressionou tanto o escritor de Groningen Jan Boer que ele a imortalizou na sua célebre narrativa de Natal Ol Joaptje — e foi assim que a casinha ficou para sempre ligada ao seu nome.

Uma vida sem qualquer conforto

O luxo estava completamente ausente desta habitação. Não havia duche nem casa de banho interior: cozinhava-se numa simples salamandra, a roupa lavava-se numa bacia e as necessidades faziam-se lá fora. Ainda assim, havia vida, afeto e até o choro de um bebé que ali nasceu.

Em 1953, Coba van der Wal tornou-se a última moradora. Ela e o marido, em grandes dificuldades financeiras, ficaram gratos por terem aquele humilde teto. Só quando a habitação foi declarada definitivamente inabitável é que a família se mudou para uma casa mais moderna do outro lado da rua.

Quase demolida, hoje protegida como monumento

Depois de os últimos moradores partirem, a casinha entrou em decadência. Serviu de ocupação temporária e foi usada para aulas religiosas, até que a demolição parecia inevitável. Graças ao empenho incansável da comunidade local e a uma renovada valorização da história de Thais Joaptje, o edifício foi profundamente restaurado nos anos 90.

Desde então, funciona como um minúsculo museu, decorado como se o tempo tivesse parado algures por volta do ano 1835. Os visitantes ficam com uma imagem única e realista do quotidiano austero de outrora. Em homenagem à famosa história, o jardim conta hoje com um busto magnífico do escritor Jan Boer.

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  • Mafalda Sampaio é uma criadora de conteúdo lifestyle portuguesa que partilha inspirações sobre casa, bem-estar e dicas para o dia a dia. O seu conteúdo combina estética moderna, organização e um estilo de vida simples e acolhedor.

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