Como os seus hábitos quotidianos influenciam o risco de cancro
Investigadores continuam a explorar de que forma a alimentação, a inflamação e a exposição ambiental moldam a saúde a longo prazo. O risco de cancro resulta de uma combinação de fatores genéticos, escolhas de vida e influências do ambiente que nos rodeia.
O médico, investigador e autor Dr. William Li defende que a prevenção do cancro deve ser analisada, em grande parte, através das rotinas do dia a dia — incluindo alimentação, exercício físico, consumo de álcool, tabaco e exposição a substâncias ambientais.
Num programa dedicado à saúde e nutrição que explora a alimentação, o microbioma intestinal e o risco de doenças crónicas, Li explicou que o organismo lida regularmente com células anómalas e depende do sistema imunitário, da regulação dos vasos sanguíneos e da saúde intestinal para manter muitas dessas células sob controlo.
Alimentos ultraprocessados associados à inflamação
Li afirmou que a genética não é a principal causa da maioria dos cancros, argumentando que “90 a 95 por cento de todos os cancros podem ser atribuídos ao ambiente, à dieta e ao estilo de vida.”
O médico alertou para o facto de os alimentos ultraprocessados poderem afetar a microbiota intestinal e aumentar a inflamação, especialmente no que diz respeito ao cancro do cólon.
Abordou também a questão da carne processada, que a Organização Mundial de Saúde classifica como agente cancerígeno do grupo 1.
O tabaco, o vaporizador e o álcool foram igualmente discutidos enquanto fatores de risco. Li explicou que o fumo do tabaco pode danificar o ADN das células pulmonares e desencadear inflamação. Quanto aos vaporizadores, os líquidos utilizados podem conter substâncias químicas que irritam os tecidos e contribuem para mutações. Acrescentou ainda que cachimbos e charutos também não são inofensivos, mesmo quando o fumo não é inalado profundamente.
Relativamente ao álcool, Li focou-se no consumo elevado e repetido, salientando que esse padrão pode danificar células, sobrecarregar o fígado e enfraquecer o sistema imunitário.
As dúvidas sobre os plásticos ainda não estão resolvidas
Li manifestou preocupação com a exposição ambiental, nomeadamente aos microplásticos, que segundo ele se acumulam no organismo através do ar que respiramos, da água que bebemos e dos alimentos que consumimos.
Defendeu que os investigadores deveriam dedicar maior atenção ao possível impacto dos plásticos na inflamação, no sistema imunitário e nos danos celulares — sobretudo porque certos tipos de cancro estão a ser diagnosticados em adultos mais jovens do que acontecia em gerações anteriores.
“Recomendaria tentar evitar os microplásticos, evitar alimentos embalados em plástico e evitar comer ou beber em recipientes de plástico”, afirmou.
Aconselhou também os viajantes a manterem-se hidratados sem depender em demasia de garrafas de uso único: “Quando viaja, deve manter-se hidratado, mas tentar não beber água de garrafas de plástico.”
As organizações oncológicas são, contudo, mais cautelosas nesta matéria. A American Cancer Society refere que não existem evidências suficientes de que os microplásticos causem cancro em humanos. A Cancer Research UK indica que não foi demonstrado que alimentos e bebidas armazenados em recipientes de plástico causem cancro.
A Cancer Research UK acrescenta ainda que pequenas quantidades de substâncias químicas podem migrar das embalagens plásticas para os alimentos ou bebidas, mas em níveis que não são considerados prejudiciais.
A alimentação apoia o organismo, mas não cura
Li destacou a soja, os tomates, as maçãs e as bagas como alimentos que podem fortalecer os mecanismos de defesa do corpo através de fibras, polifenóis e outros compostos vegetais.
No que toca à soja, questionou os receios em torno dos fitoestrogénios, citando investigação realizada com mulheres já diagnosticadas com cancro da mama. Nesse estudo, um consumo mais elevado de soja estava associado a uma menor mortalidade.
“Isto reduz efetivamente a mortalidade”, afirmou.
Li falou também sobre os tomates cozinhados, associando o seu teor de licopeno à saúde da próstata, e referiu que as maçãs e as bagas podem contribuir através de compostos anti-inflamatórios e fibras que nutrem a microbiota intestinal.
A sua mensagem central foi clara: a alimentação, por si só, não “combate” o cancro de forma isolada. Em vez disso, hábitos alimentares saudáveis podem ajudar o organismo a manter o sistema imunitário, a controlar a inflamação e a preservar os mecanismos de defesa associados ao intestino.
A conclusão não é uma promessa de que um único hábito previne o cancro. É antes um lembrete de que o risco se constrói ao longo de muitos anos, através de inúmeras exposições, escolhas e fatores de proteção que atuam em conjunto.










