Uma ligação que dura a vida inteira
Quem aprende a olhar e a ouvir com atenção pode maravilhar-se continuamente com a beleza do mundo natural. Há tanto para descobrir e vivenciar quando se dedica tempo a isso. Mirja Brandorff ainda se lembra, com uma precisão quase perfeita, do momento da infância em que esse amor eterno despertou nela.
“Devia ter uns quatro anos e estava a ouvir a sebe do nosso jardim, porque de lá vinham sons de pássaros. Tinha de ser um ninho, mas eu era pequena demais e não conseguia ver nada. Então o meu pai levantou-me ao colo e pude olhar lá para dentro: havia um melro com filhotes entre o verde. Foi um momento absolutamente extraordinário.”
Sempre lá fora
É com esse mesmo entusiasmo contagiante que Mirja leva os seus alunos a explorar o exterior. Para ela, a essência está em aproximar as pessoas da natureza que as rodeia e, ao mesmo tempo, da sua própria criatividade — que muitas vezes se revela surpreendentemente rica.
Momentos como o do ninho na sebe percorrem a sua vida como um fio condutor. Mirja recupera-os da memória sem esforço, como fotografias instantâneas de uma infância calorosa passada no vale do Vechte, em Overijssel. Foi lá que, aos oito anos, já saía a explorar o campo com um caderno de esboços debaixo do braço.
Encontrava-se sempre “algures” ao ar livre — vagabundeando despreocupada, desenhando, encantada pela sensação da natureza à sua volta. Água ondulante e campos a abanar ao vento, nuvens a correr, pássaros a voar de passagem.
“Aprendi a observar muito bem os pássaros, as plantas e as borboletas”, conta Mirja, “e com isso fui acumulando muito conhecimento sobre a paisagem, o tempo e o que se pode ou não colher. Anotava tudo o que via e, quando chegava a casa, comparava as minhas notas com a informação dos guias de natureza. Foi assim que me tornei também uma apaixonada pela observação de aves.”
A natureza como destino
A natureza revelou-se o seu verdadeiro destino, ainda que esse caminho tenha tido algumas curvas. “O meu sonho era ser bióloga, mas a minha discalculia acabou por ser um obstáculo demasiado grande.”
Depois de uma licenciatura na área da saúde, Mirja trabalhou como enfermeira comunitária e percebeu que o seu talento de observação funcionava tão bem dentro de quatro paredes como ao ar livre. “E a componente de anatomia do meu curso ajudou-me a progredir no processo de desenho.”
Trabalho e passatempo foram-se reforçando mutuamente. As horas livres eram passadas no campo ou na floresta — mesmo com chuva ou vento forte. “Aprendi uma lição importante com a minha mãe”, diz Mirja. “Independentemente do tempo que faça, vai lá para fora! Depois disso, sentes-te sempre melhor.“
Um mosaico de estações
Um amor sem limites pela natureza — foi algo que Mirja trouxe de casa. “A minha mãe vinha de uma quinta, era uma pessoa genuinamente ligada ao exterior e sentia-se rapidamente sufocada dentro de casa. Com o meu pai adorava andar de bicicleta; pelo caminho, ele ensinava-me a olhar para a natureza e contava-me muita coisa sobre a região e a sua história.”
Na mesa da cozinha em Rottevalle — onde a ilustradora se instalou na Frísia em 2013 — ela espalha os seus esboços e revela-se um colorido mosaico das estações do ano, salpicado de anotações escritas à mão.
O que é um diário de natureza?
A ideia é mais simples do que parece. Um diário de natureza é um caderno pessoal onde se registam observações do mundo natural — através de desenhos, notas escritas, ou ambos. Não é preciso ser artista nem especialista.
- Leva um caderno ou bloco de esboços quando sais a caminhar
- Anota o que vês, ouves, sentes ou cheiras
- Esboça rapidamente o que te chama a atenção — uma flor, um inseto, a forma de uma nuvem
- Regista a data, o local e as condições atmosféricas
- Com o tempo, cria-se um arquivo vivo das estações e da vida selvagem local
O resultado é um diário de tudo o que cresce, floresce, voa e rasteja — uma memória pessoal da natureza que nos rodeia, construída passeio a passeio.
A vida lá fora está em plena efervescência
O mundo exterior está num momento de enorme exuberância. A estação abre todos os registos para colorir e perfumar cada saída com generosidade. Por isso, aguça os sentidos quando saíres e — dica! — leva um caderninho ou um bloco de desenho contigo. Faz algumas anotações. Esboça à primeira vista o que vês, ouves, sentes ou cheiras. Pronto: o teu diário de natureza está criado.










